Ouça mais um bom conselho que eu lhe dou de graça, esqueça os meios, esqueça os finais. Evite a demora. Ligue quando prometer ligar, ou não prometa. Entenda a minha pressa e me deixe sozinha quando eu tiver um ataque de nervos. No fim das contas o que interessa é muito sutil, palpável e abstrato, ao mesmo tempo. Não descubra os mistérios imediatamente. Não demore muito tempo pra descobrir. Roube beijos. Não deixe apodrecer o nosso fruto proibido. Seja firme, sem deixar de ser leve. Me chame de sua menina. Apague a luz e me peça pra ficar.
"Uma flor nasceu na rua...Uma flor ainda desbotada, ilude a polícia, rompe o asfalto. É feia mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio." (Carlos Drummond de Andrade)
sexta-feira, 10 de junho de 2011
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Tabacaria
“Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada” e pra falar a verdade, mestre Pessoa, nem tenho em mim todos os sonhos do mundo. Acompanho as dores de outras pessoas, que já foram minhas outrora, e ainda sinto como se fosse. Na vida real é bem menos, menos lirismo, menos poesia... Na vida real o sol queima a grama verde e queima a nossa pele, também. Na vida real só se morre de amor nas novelas das oito. A tabacaria da frente ainda funciona e se responsabiliza pela morte dos que procuram uma ilusão pra substituir sua própria agonia. Então me deixe continuar a dar murros na faca cega da paixão já que o coração que sofre no final é sempre mesmo e a cara no espelho do banheiro sujo é ainda aquela que já quebrou tantas outras vezes.
Hoje estou vencido e a lucidez me corrompe diariamente. Se o erro de tudo foi falha minha, ou se o que me ensinaram não corresponde à realidade das metades vazias, sou incompetente para compreender. Então me deixe chorar de novo o mesmo problema e viver as migalhas do vento que passou beijando meu rosto, ontem. Deixe eu ficar e ouvir a canção que não toca no rádio.
E me deixe aqui esperando o sol de amanhã, esperando o trem, esperando a morte, esperando a sorte. Me deixe esperar a fé. Mas no fim de tudo sabemos que a única coisa que existe é essa eterna espera. Enquanto eu fico respirando a fumaça cinzenta dos automóveis que passam pela rua, morrendo todos os dias como um grande mergulho em uma piscina de gelo.
Doem-me as costas e a consciência. Fogem-me os amigos e o sono. Mas tanto faz, são apenas observações de quem ofereceu o orgulho em sacrifício a uma causa que não valia à pena. “É assim, tudo que não gera felicidade, degenera, morre na impermanência. Nem pra sempre, nem nunca mais.”
Espero o dono da tabacaria da frente sair na porta e acenar pra mim, assim eu pararia de pensar tanta besteira e o acenaria de volta. “Sem ideal, nem esperança.”
sábado, 28 de maio de 2011
"Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre."
Gabriel García Marquez
quinta-feira, 26 de maio de 2011
A esperança morreu
A esperança morreu junto com tudo o que convenientemente deveria morrer antes dela para que o ditado chulo se fizesse verdade. Nesse momento, sentar e pensar positivo é tão eficaz quanto assistir à programação de domingo pra resolver problemas de química. As vidas continuam mal vividas e as dores já estão espalhadas. Uma ansiedade corrói o peito inundando-o de angústia. A esperança morreu.
E flutuam, pairando atônitos pelos ares vermelhos das cidades. E se queixam, sem propósito, da solidão que os acompanha intimamente, todas as horas do dia. Cantam-se os cantos tortos e os acasos todos estacionaram. Foram vendidos os sonhos. A esperança morreu.
Os dias continuam estranhos, a poeira continua embaixo do tapete. E morreram o reconhecimento e os bons motivos. Já devemos nos preocupar mais com o colesterol do que com os planos de melhorar o mundo. Já podemos maquiar nossos rostos e corações. A esperança morreu.
Hoje as criancinhas ainda morrem de inanição em vários pontos do país. E o planeta grita as verdades inconvenientes que nossos filhos não mais verão. E jovens adoecem diariamente ante a ferrugem dos sorrisos tortos, enquanto os dias ainda amanhecem sempre iguais. O encanto morreu de desgosto em algum bar lânguido da cidade entre um comentário infeliz de uma pessoa que passa e mais uma garrafa de bebida. As mentiras sinceras deixaram de ser interessantes e ainda morrem alguns na contramão, atrapalhando o tráfego.
A esperança morreu e deixou as contas de água, luz e telefone. Morreu de desgosto, morreu de descaso. As lembranças continuam no espelho, mas não dá mais pra sobreviver à hora da verdade. Hoje, nem a coragem, na falta de algo melhor. Então continuemos aumentando como insetos em busca de uma lâmpada quente. A esperança morreu.
Deixo pra amanhã os planos pra mudar o mundo. Deixo pra amanhã a preocupação com a reprodução das baleias brancas em extinção. Deixo pra quem quiser, as desculpas pra inventar. Hoje a luz não ilumina as mini certezas. Cantemos a nossa desgraça nos quatro cantos da cidade, o resto fica pra amanhã porque, hoje, a esperança morreu.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Por hoje
Hoje ela acordou e não sentiu a preguiça características de todas as manhãs apesar das normais poucas horas de sono que se tinham sido cumpridas sem rigor. E acordou serena. Hoje ela não se importou com os escândalos políticos da televisão e sorriu com a propaganda do refrigerante estrangeiro.
Hoje ela não organizou o tempo e, no entanto, percebeu que tinha tempo pra tudo. Então, hoje ela leu o livro velho que havia sido encostado, em virtude dos afazeres mais importantes, e a esperava abandonado naquele mesmo lugar. E não se preocupou com a ligação que não fez, com a satisfação que não deu. Olhou fotos antigas, riu delas.
Hoje ela sentiu o sol e trocou a posição dos móveis. Escreveu cartas que nunca serão enviadas, mas ela espera respostas, mesmo assim. Hoje ela aprendeu uma palavra diferente e ficou pensando em que circunstância usar. E programou uma viagem, e desprogramou em seguida. Lembrou dos amigos distantes que ainda estão lá e lembrou o cheiro bom da sua casa de infância. Hoje ela não pensou nos seus erros e nas suas falhas e, não se puniu por isso.
Hoje ela parou pra perceber a fugacidade do tempo e a efemeridade das coisas e se sentiu pequena diante de tudo. Hoje ela recebeu um elogio e se sentiu bonita. Hoje ela fez a mesma rotina de todos os outros e porque prestava atenção nas pequenas coisas foi diferente de sempre. Porque hoje ela usou da felicidade como um estado de espírito e não como um status permanente. Se era feliz? Sim, hoje era.
domingo, 15 de maio de 2011
Não era amor
Não, aquilo não era amor. Era um abraço quente em uma tarde fria, era uma boa música no som do carro, era uma saudade gostosa diante de uma viagem inesperada, era a morte premeditada da saudade no fim de semana próximo, era um sorvete de bombom, era um convite pra jantar. Não era amor...
Era andar enlaçado pela cintura, era uma ligação de madrugada, era a briga no começo da noite, era a reconciliação no final. Era o filme da tarde, era uma mensagem boba, era mais um mês terminado, outro começado, era a censura do vestido curto, era um beijo roubado. Não era amor...
Era andar enlaçado pela cintura, era uma ligação de madrugada, era a briga no começo da noite, era a reconciliação no final. Era o filme da tarde, era uma mensagem boba, era mais um mês terminado, outro começado, era a censura do vestido curto, era um beijo roubado. Não era amor...
Eram dois celulares desligados, era fervura, era a primeira, era a última, eram as fotos, eram os fatos, era a despedida, eram as cócegas, era o inabalável, era o elogio, era a espera, era o encontro, era a dúvida, era a necessidade, era o cotidiano, era o projeto da casa, era o acaso, era o propósito. Mas amor... Amor não era.
Era a fuga, era um ciúme torto, era uma risada gostosa, era um segredo no ouvido, era a memória, era um esforço pra esquecer, era a vontade de lembrar, era o fim, era o começo, era a promessa, era um ensaio, era o desgasto, era a espera, era a distância, era mais um, era a idéia. Não... Amor, não.
Era o descanso, era surpresa, era o desejo, era nada, era falta, era romance, era cinema, era o talvez, era o querer, era ternura, era pele, era colo, era mistério, era o mundo inteiro, era tragédia, era fingimento, era realidade, era adeus, era verdade, era brigadeiro de panela, era a dor, era o bem. Não era amor...
Era melhor.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Só pra discordar
Você diz que é insegurança e eu discordo completamente. Mas discordo só pra não concordar, no fundo eu também sei que é sim uma insegurança por não ter previsão. Logo eu, que era acostumada a caminhar olhando o terreno longe, sabendo onde ia chegar. Eu que conheço e mapeio tudo, eu que faço planos pra fazer planos não consegui conter a verdadeira insegurança de não saber.
Todas as novidades são bonitas e superiormente interessantes. Não foi diferente com você. Mas as novidades geralmente não trazem um manual de instruções e me assusta ter que passar por elas de olhos fechados. Você é uma confusão que liquidifica toda e qualquer idéia em processo de formação. Você fica quando eu espero que vá e beija a minha testa quando eu espero te ver com raiva. E faz planos pra daqui a pouco, mas o momento de agora grita, então, você prefere entrar de cara. Eu fico atônita, mas seguro a sua mão e vou com você.
Você pergunta se eu to gostando tanto assim e eu discordo só pra não concordar. Você sabe. E me abraça quando eu sinto frio. Você é uma contradição e, eu não sei se tô nessa por teimosia ou ainda levito na sua leveza e brevidade de tratar as coisas como se elas fossem realmente simples. E ri quando eu discordo disso, mas dessa vez eu discordo mesmo.
Então você fica e nessa altura eu prefiro que fique mesmo. E que fique assim, desse seu jeito sem regras, sem métodos, sem planos, sem data... Hoje eu só quero que fique.
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